domingo, 16 de abril de 2017

Era índia ela e era forte, postura firme, silhueta valente e seu olhar. Era calada ela e era atenta, olhava prum lado mas estava observando o outro e seu sorriso. Era índia ela e era uma bruxona antiga e era xamã e sonho. Era forte ela e não deixava uma brecha, um suspiro, um alento. Mas sorriu com o olhar, mexeu no cabelo e falou uma ou duas coisas reservadas. Era tímida ela e era valente e forte e índia, bruxona antiga e fez um ou dois gestos. E fez a Lua se encher e o fogo esquentar e meus sonhos...

segunda-feira, 5 de dezembro de 2016

Um ponto, afinal?

Tomou o papel em branco em suas mãos,
debruçou sobre a escrivaninha e respirou fundo.
Usou grafite, bico de pena e uma esferográfica,
marcou dois pontos distantes e traçou uma linha fina entre eles.
Planejou a rota, a parada, o livre arbítrio e fechou os olhos.

O papel em branco na mesa, sem margens, sem pautas.

A linha fina, tênue, traçada à frio,
imaginou dois pontos distantes e tentou uní-los.
Não considerou ventos, tempestades e noites sem lua,
criou intersecções, paradas obrigatórias e odes ao infinito.

Bebeu café, água, uma miscelânea de frutos desconhecidos,
Apontou o grafite, fez atalhos, pontos seguros e um coração.
Sentiu o ritmo mas não o pulsar, autômato.
Sentiu o vento contra e sorriu, efêmero.

A mesa, os traços e o papel ainda em branco.

A linha trêmula, imaginária, imperfeita,
saía de suas mãos, como palavras sem letras.
Errou em seus próprios atalhos, subverteu seu próprio caminho,
Riu e chorou, fez das lágrimas ácido que usou em sua aquarela.
Não tinha mata-borrão, não passou o rascunho à limpo.

Monocromático em todas as variações de tonalidade.

Seguiu em passos firmes seguindo sua debilidade,
vacilou em suas certezas e ignorou os pontos seguros.
Cegou-se à olhos vistos, engoliu o orgulho e as esperanças,
Imaginou dois pontos e encurtou o caminho.

Escolheu sem reflexão, palavras certas, erradas e lacônicas.

Desenhou uma linha, uma corda, um ajuste e desejou o infinito.

Quis ser forte, invencível, intocável.

O papel em branco, o medo, o desconhecido e um sorriso.
Débil, efêmero, vagou no espaço-tempo como se não fosse nada.
Definiu um ponto final, fechou os olhos, respirou fundo e sorriu.

Amém!

quinta-feira, 24 de novembro de 2016

Amor em fatias

Disse que amava,
E que por isso, faria loucuras, e as fez,
Cada qual em seu tempo, em sua razão, torpe e eu amei de volta,
Mandou colocar uma faixa dizendo isso na rua, em frente ao meu trabalho,
- Éramos descoberta, paixão, furor, fúria.
Encheu a cara e me amou no meio da rua, como dois animais,
- Éramos entrega, ilusão, inconsequência.
Me levou para conhecer todos os motéis da cidade,
- Éramos nada, luxúria, dois corpos unidos, vagando por aí.
Atravessou os trilhos do trem, pulou o muro de contenção e quebrou o tornozelo,
- Éramos loucura, intensidade, pesadelo.
Abriu a porta da sua casa e me levou para outro mundo,
- Éramos alegria, desejo, honestidade.
Fez voto de pobreza, promessas de amor eterno,
- Éramos ilusão, desejo e culpa, crime e castigo.
Propôs amor livre, liberto, sorria e se entregava,
- Éramos pressão, controle, angústia.
Sorriu pra mim, segurou forte minha mão e não desejou mais nada,
- Éramos honestidade, entrega e um casamento à Las Vegas.
Me vigiava de longe, virtualmente e surgia de madrugada em casa "pra ver se eu estava bem",
- Éramos confusão, ilusão, carência e um restinho de esperança.
E no segundo beijo, na terceira noite, exigiu amor eterno,
- E éramos emoção, reencontro, pressa e ilusão de novo.
Cada qual em seu tempo, em sua cegueira, insana e eu amei de volta,
E me deu uma facada, me desamou eternamente, me abandonou no altar.
E destruiu a casa inteira, preferiu o conforto e a ilusão, rezou e quis ser canonizada.
E desejou minha morte, sorriu e foi embora.
E controlou meu dia e tirou de mim tudo o que eu nem tinha.
E me deixou sem nada entender.
Cada qual em seu tempo, em seu amor próprio, vingativo e eu amei de volta.
E eu queria apenas um abraço, um sorriso, um conforto, uma entrega.
Ser eterno, pleno, ser nada e ser amor.
E hoje sou reflexão, aprendizagem e renascimento.








Ao que se quer, ao que se foi e o que não é mais

Lembrou de quando era leve.
E as mãos não ficavam se abanando e nem tinha a necessidade de enfiar-se nos bolsos.
Era leve e saia à noite e de manhã e à tarde.
Jogava xadrez na praça, refletia, lia e flutuava.
Não sentia falta, não faltava à ninguém e sorria.
Se encontrava no olhar dos improváveis dias.
Flertava de soslaio, fazia traquinagem e roubava-se um sorriso tímido.
Daqueles quase indefectíveis, surgindo no cantinho dos lábios.
E seguia leve, ligeiro, certeiro, dedilhando o espaço como se tocasse teremim.
Lembrou de quando era leve, no pensar, no passar e até no pesar.
Brilhava insanamente no reflexo de seus olhos, fértil, infinito.
Não havia cobranças, expectativas, apenas estava ali.
Não havia promessas, sem amanhã, sem ontem.
Leveza apenas, sorriso torpe e a mente vagando.
Era só, tudo, nada, improvável, profundo.
Jogou fora o celular, fechou o livro, sessou a música e deixou o pensamento fluir.
Mergulhou em seus próprios olhos instantes antes de se fecharem.
E lá ficou, eterno, efêmero, feliz.
E seguiu liberto e não precisou de nada além.
E voltou a ser leve.

quarta-feira, 14 de setembro de 2016

Improvável

Olhou-me profundamente, de maneira longa e lenta,
Escancarou esta janela, que dizem, é a janela da alma,
Num lampejo de descuido viu no fundo dos meus olhos um último brilho,
Lançou-se no infinito escuro e tateou o além tentando me encontrar,
Sentiu um vulto que logo se transformou numa sombra, na penumbra, indistinto,
Tocou as mãos calejadas, duras e ásperas que pendiam incertas pelo ar,
Percorreu aquele corpo débil com suas mãos finas,
As pontas de seus delicados dedos iam revelando histórias que a vida deixara,
Sentiu cada traço que o tempo trouxe,
As cicatrizes espalhadas, nas pernas, braços, rosto,
A imperfeição de uma fratura colada incorretamente,
Percebeu a mente letárgica, um pouco confusa,
As olheiras que evidenciam os sonhos perdidos,
Os sonhos indo e vindo sem compromisso com a razão,
E era lágrima acumulada,
Era um respirar profundo num peito rouco,
Já não importavam mais as incertezas do passado,
E suas mãos já não procuravam mais respostas,
Agora a incerteza  se tornou afago,
O abraço, um aconchego,
A mente, ainda letárgica, busca conforto, silêncio e o que ainda há de vir...

quinta-feira, 25 de agosto de 2016

Me desamparei em mim mesmo, em minhas loucuras, em meu amor e nos amores que vivi e que não eram exatamente amores.
Me desamparei em minhas loucuras, de querer estar bem, de querer ser vencedor e de não querer nunca dar o braço a torcer.
Me desamparei em minha teimosia, de ser feliz à todo custo, de desdenhar dos momentos ruins, de ignorar momentos sérios e de querer estar sempre sorrindo, pra fora.
Me desamparei em minhas próprias escolhas, em minha superexposição, em meu choro incontido e em minhas raivas lacônicas.
Me desamparei em minhas próprias ilusões e dentro dessas ilusões levei comigo sonhos alheios, alegrias e amores,esses sim sinceros e que buscavam apenas o mais simples e eu sempre complicando.
Me desamparei em mim mesmo e nas certezas que sempre tive e fechei os olhos e segurei firme mãos que estavam iludidas com minha falsa alegria.
Dei de mim o que pude e escondi profundamente o que não podia.
Quis ser eu e em minha loucura fui outra pessoa.
E me iludi e iludi o mundo, o universo e tudo o mais.
E hoje olho para trás e nada vejo e olho para frente e nada vejo.
Um coração velho e abatido que bombeia mecanicamente apenas porquê é incapaz de parar sozinho.
Me desamparei sozinho por anos consecutivos e hoje busco em vão formas de resgatar minha vida, de me resgatar de mim mesmo, de ser eu, apenas...
Mas quem sou eu?

terça-feira, 9 de agosto de 2016

Rotas que se alteram



Dos momentos de reflexão profunda e meditação transcendental enquanto se pedala longas distâncias.
Em que cada pedalar é um início, meio e fim em si mesmo.
E as lembranças do que se foi, e as descobertas do que se achava que foi.
Um pulsar, um pensar, suspense e arritmia.
E na estrada não existe pressa, existe apenas tempo e a própria estrada.
Não existe distração, só respiração profunda e entrega.
Muda-se a rota da viagem como se muda a rota da própria vida.
Não se sabe o que virá amanhã, ou na próxima cidade, ou na próxima curva.
Apenas pedalo e sigo feliz, enfim.
Então o momento é esse, viver agora e sorrir.
E rasgar o peito e gritar na estrada.
E seguir pedalando.